15.6.07

A energia do Amarelo


Entrevista com Luciano Amarelo, intérprete, criador.


Nesse dia, choveu a cântaros. Seria normal se estivéssemos num daqueles invernos do Porto, onde não pára de chover. Mas não, em pleno Junho, desejando sol encontrei-me com um dos intérpretes e criadores mais completos da nossa praça.
Luciano José de Sousa Amarelo, mais vulgarmente conhecido no meio como “o Amarelo”. Como somos da mesma idade a informalidade por tu, presta-se essencial. Fundador do Teatro Bruto e de outras companhias define-se como intérprete e criador. Pluridisciplinar, faz dança, teatro, clown, desenho de luz, figurinos... Agora está a experimentar a encenação. Não se sabe de onde vem esta energia.
Há muito que tinha vontade de falar com ele.


Vamos começar pela tua chegada ao Porto. Como é que vens cá parar?

Vim da Guarda, com quinze anos para estudar na Academia Contemporânea do Espectáculo (no Porto). Na altura andava na orientação vocacional e tanto no quinto ano, como no nono, os resultados orientavam-me para o teatro. Eu não tinha tido qualquer tipo de contacto com o teatro a não ser na escola, mas sem nunca ter feito nada. Sugeriram-me escolas profissionais e uma delas era a Academia. Disseram-me - “tenta esta, que é uma escola nova”!
Foi um pouco complicado, porque as escolas profissionais não tinham vinculação e eu estava com um pouco de medo. De todas as formas vim cá. A escola tinha dois anos de existência, eu entrei no terceiro ano de vida da escola. Fiz as provas, fiquei. Depois vim para aqui e mudei completamente a minha vida, porque comecei a viver sozinho no Porto e pela primeira vez. Assustou-me no início, porque até aos dez anos eu tinha vivido numa aldeia e dos dez aos quinze tinha estado na Guarda, por isso, ter de deixar a família e viver numa cidade nova é difícil, não é?

E depois? Acabaste a Academia e ficaste pelo Porto?

Até ao final do curso fiquei pelo Porto a acabar a chamada PAP (Prova de Aptidão Profissional), foi aí que fundamos o Teatro Bruto, que correu muito bem e fez com que, no fundo, quiséssemos continuar a trabalhar como companhia.
No início os apoios eram só da Câmara, que eram apoios muito pequenos, na prática trabalhávamos de borla, mas pouco a pouco, com persistência começamos a ter apoio dos “Pontuais” (subsídios à criação artística), do antigo Ministério da Cultura, actual I. A. (Instituto das Artes), depois recebemos os plurianual, bianual e agora somos a companhia que menos recebe no Porto. Eles têm mantido a mesma quantia, o que quer dizer que desce o nosso poder, porque o nível de vida sobe.

Então começas com o teatro, mas no teu percurso começas a descobrir o movimento?

Eu descobri a dança, também no teatro, na escola e, na altura era um dos melhores alunos e de repente, percebi, que mexer-me era a maneira mais fácil que eu tinha de chegar às pessoas. Surgiu ter uma formação com uma professora da Lecoq (Escola Internacional de Teatro Jaques Lecoq) chamada Sandra MladenoviČ (ainda na Academia), que me aconselhou a ir para lá. Já tinha ouvido falar da escola, que era para actores e encenadores, mas com uma componente física muito forte.

Em Paris.

Em Paris. Consegui uma bolsa da escola, não para o ano que eu queria, por isso fui para Londres, quatro meses, para uma escola muito má (risos). Consegui a bolsa e cheguei lá e percebi, que aquilo era muito complicado, pois de três turmas que entravam só ficava uma turma para o segundo ano, portanto havia uma selecção muito criteriosa. Só ficavam um terço das pessoas. Eu tive a sorte de ficar com mais uma colega da Academia a Sandra Salomé, com quem fiz a escola.

Quanto tempo é que estiveste em Paris?

Dois anos seguidos, em 97 e 98. Daí voltei ao Porto, ao Teatro Bruto, mas mais num regime de colaborador externo. Dava algumas dicas quanto ao trabalho corporal, bem como o apoio ao movimento ou como assistente de encenação. A escola foi muito importante, porque abriu imenso o meu leque de trabalho. Descobri que podia dançar. Comecei a criar pontes com a dança e também na criação, porque é uma escola muito forte nessa área.
No meio disto tudo foi muito estranho, porque fiquei para o segundo ano, foi mais um ano fora do Porto. No final fui convidado para fazer uma audição onde fiquei. Tinha que decidir. Ficava de fora do Teatro Bruto mais um tempo, ou ficava em França. Decidi ficar em França e fazer o trabalho (“Butterfly Blues” 1999) de dança-teatro, que durou dois anos. Ia e voltava, durante o tempo da itinerância. Isto fez com que eu começasse a trabalhar com outras companhias e de repente, percebi que mais se aprende mudando de criador ou quem nos dirige. Apanhas as maneiras diferentes com que cada pessoa trabalha, conheces o meio e entendes o que é que é preciso mudar.
Quando cheguei a Portugal senti-me completamente frustrado, porque depois da formação que tive, dos espectáculos que vi e fiz e dos convites que me fizeram e eu recusei, deparava-me com um certo provincianismo.

Os Circolando já andavam por aí?

Os Circolando aparecem mais tarde. Na altura também estava a conhecer as pessoas dos Circolando, como a Luísa Moreira (ex-produtora) e iríamos fazer um grupo nós. Mas o que aconteceu foi eu mais a minha colega, convidamos um ex-professor nosso da Lecoq (André Riot-Sarcey) ligado a uma companhia de clown (Les nouveaux Nez) e apresentamos um espectáculo à capital Europeia da Cultura. Foi uma das duas produções nacionais de novo circo na época, os Circolando e este projecto chamado “Quiero-Quiero”, que era um espectáculo clownesco e musical.

Essa foi a oportunidade de trazer aquela mais valia que eu queria. Abrimos um workshop-audição, uma coisa aberta. O encenador, no final, escolheu as pessoas para o espectáculo.

Porque é que não ficaste em Paris?
Pois, acho que é por causa desta coisa de eu me sentir português, sentir que pertenço aqui. A nível artístico estava triste por não estar com o Teatro Bruto, porque estava a começar e pouco a pouco, ia saindo, mas tinha vontade de voltar.
Eu entrei como actor somente nos primeiros dois espectáculos, nos seguintes quando chegava não entrava a tempo de integrar o processo desde o início.
Apesar de aqui ser muito difícil trabalhar?

Sim. Eu agora brinco. Digo que vou fazer um curso de jardineiro. Dou-me melhor com as plantas. Elas percebem-me melhor e eu a elas. Ou seja, cansa-me, porque o estatuto do artista não existe, fala-se que vão tentar melhorar, mas não se faz nada, a cultura não é uma coisa importante, neste momento, em Portugal. O Rivoli entretanto fechou e ao fechar deixou-se de ver espectáculos de novo circo. Os últimos melhores que eu vi foi lá. De repente fecha também a sala para as pequenas companhias, as outras companhias que têm um espaço ou estruturas alugam os espaços muito caros com o argumento que não têm dinheiro. Estamos a entrar num ciclo vicioso, em que não dá para fazer nada. Mas o teatro é a última coisa que as pessoas nos podem tirar, nem que a gente faça teatro na rua.

E vão sair à rua?

Já estivemos para fechar portas três vezes (Teatro Bruto). Isso é que é um cansaço contínuo. Nós tivemos as reuniões com o I.A. (Instituto das Artes) para pedir apoios, disseram-nos que não era possível e nós dissemos que não era possível continuar se não fechávamos portas e a resposta foi - "Então, fechem!"
Os actores não recebem, as pessoas da produção recebem, porque ainda temos uma estrutura. Estamos aqui e não podemos fazer nada e isto passa ao lado de muita gente. Só resistimos, porque tivemos um mecenas e porque acreditamos no nosso projecto.
Parece haver uma crise, em que as próprias pessoas do meio já não vêem o trabalho dos colegas e acho, que se tem estado a criar uma negatividade em toda a gente e de repente não sei o que se pode fazer.

Como é que foram os anos do Teatro Bruto até agora? Qual foi a última peça?

Agora foi “Vou mudar a cozinha” (direcção de Ana Luena, uma das fundadoras do Teatro Bruto). O Teatro Bruto organiza-se por ciclos, este ciclo esteve ligado ao tema da viagem, chama-se “Andamentos”, já com baixo orçamento, porque nós tínhamos cinco espectáculos, passaram para três e agora vamos em dois. O primeiro correu bem, numa época em que havia muita coisa a acontecer no Porto, no mês de Maio, mas correu bem. O próximo é uma co-produção com o Festival de Marionetas do Porto e vou dirigir um espectáculo de marionetas, ou seja, a ideia do Teatro Bruto é ir cada vez mais para uma perspectiva pluri-disciplinar. Já não somos uma companhia só de teatro. (espectáculo “Corações em Ferrugem”, estreia em Setembro)

Vocês saíram de uma escola e estão sempre à procura é isso?

Neste momento apostamos mais nas pessoas da companhia, sem nos fecharmos ao meio artístico, porque nós sempre convidamos elementos exteriores, que é uma coisa que poucas pessoas fazem, acreditar nelas e se possível renovar o convite. Agora, neste momento, é durar até ao final do ano, está muito mau com o dinheiro.

Como é que foi trabalhar com esses outros criadores?

O Teatro Bruto é muito peculiar. Começamos como um projecto bruto, de Teatro Bruto, porque era um projecto mais ligado ao lado ritual, ao lado etnográfico, antropológico e de pesquisa, nunca usamos espaços e textos convencionais. Depois, houve uma fase em que trabalhamos muito a nível estético tanto a luz, como o som, como o vídeo. Houve uma altura em que se explorou muito as “primárias” (exploraram as cores primárias como base de criação), era o lado plástico da companhia.
Ultimamente, precisávamos mais de um teatro em e que o actor, personagem física voltasse a ressurgir. Aí continuamos a convidar encenadores exteriores ao projecto, porque o Teatro Bruto propõe um projecto base ou um tema a trabalhar pelo encenador convidado. Tentamos sempre impor uma marca ao encenador que vem. Claro que é sempre complicado, porque o encenador traz sempre alguma coisa na bagagem. Neste diálogo e ao fim de dez anos percebemos que nós, como criadores, também temos algo para dar. E é isso que temos feito.

Como é que foi para ti seres encenador?

Espera, antes tenho que te dizer que como criador comecei a trabalhar na área da performance e da dança, ou seja como criador, intérprete. Como encenador, encenador, depois de algum tempo no apoio ao movimento, assistente de encenação começou com o “Projéctil”, um novo projecto na Guarda. Convidaram-me para fazer parte de um núcleo duro, com quatro pessoas profissionais ligadas ao meio, que dirigem um projecto com a super-visão do Américo Rodrigues, que é o director do Teatro Municipal da Guarda.
Fiz uma primeira encenação (“E Ou diálogos”, de João Camilo) onde assino também a luz, os figurinos, ou seja, eu de repente, percebo que tenho que combater o meu medo. Eu sempre tive medo, sempre fui cobarde, porque sou um perfeccionista e, às vezes, prefiro não fazer, do que fazer mal, é um bocado estúpido! Mas depois deste desafio em que além de encenador, também entro como actor eu disse: - “se fazes isto tudo estás pronto”!
A outra encenação foi um convite do Teatro Universitário do Porto, que teve agora uma reposição e que teve grande visibilidade, que é o “Cara de Fogo”. Um espectáculo interessante, num espaço não convencional. Os actores eram mais do que as personagens e então deu-se um desdobramento das personagens. Uma das coisas que funcionou foram os espelhos no espaço, em que se dobravam as cenas. H
avia sempre um trabalho de multiplicação, não só dos papéis, mas também, do espaço e das cenas no espaço. E depois para cada tipo de trabalho, eu tento trabalhar de forma completamente diferente. Um espectáculo é uma coisa única.

Que autor gostas mais de ler?

Olha eu na Academia, quando descobri Becket, gostei muito, porque tem a ver com o meu universo. Eu acho que sou considero-me absurdo-poético. É contemporâneo, toca em temas como a morte, o amor, é universal, mas também teatral e tem um lado “clownesco” que é uma coisa que eu gosto de explorar.

O que é que a França te ofereceu artisticamente, que Portugal não oferece?

O trabalho específico, mas muito completo. Na Lecoq, por exemplo, as pessoas saem de lá, tanto fazem circo, como dança, trabalhos de clown, técnicas e estéticas teatrais desde o melodrama ao absurdo.

Aqui nas escolas isso não se aprende?

Isso não se aprende. Eu aprendi com essa professora da Lecoq uma técnica que são os bufões. Aprendi bem isso durante duas semanas.

O que é que são os bufões?

São corpos exagerados, em que tu exageras o teu corpo, crias um mundo grotesco com o teu próprio corpo. Os bufões são divindades, mas são como seres, que vêm à terra para gozar com a humanidade. Pegam em temas como a religião e gozam, fazem uma sátira sobre isso.
Há outras técnicas de máscara como a “Larvar” que é uma espécie de pré-mascara, não tem uma forma definida, está a evoluir para um estado mais definido, mas não chega lá. É uma larva de máscara. A partir disto entendes o acto de criar e podes escrever teatro. Estás lá para aprender, mas sobretudo para fazer e o acto teatral tem imensas regras. Lá, eu aprendi a ser prático.
Eu tenho dado formação e dizem-me que aprendem mais numa semana comigo do que em três anos de curso. Essa bagagem permitiu-me estar num acto constante de criar.


Nota Editorial:
Voltei a emcontrar-me com o Luciano para corrigir alguns erros e melhorar algumas referências no texto. Estava tudo muito confuso. É sempre a oportunidade para melhorar esta publicação.

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