21.6.07

A Entranhável Transparência




Entrevista com Lurdes Domingues, militante social.


Marquei a entrevista com Lurdes Domingues no seu espaço: o sindicato. Edifício debruçado na Praça da República, com as melhores mobílias dos anos sessenta. Uns minutos mais tarde chegava a protagonista desta entrevista com a sua conhecida boina basca.
Uma mulher de armas, que começou a lutar por um mundo melhor nass pequenas coisas. Chegou ao Sindicato dos Trabalhadores da Saúde, Solidariedade e Segurança Social, porque ganhou consciência das injustiças que estava a ser vítima.
Foi como as cerejas. A partir daí envolveu-se no activismo social e hoje, colabora com diversas organizações na cidade do Porto. Tem um caderno para cada uma delas. Ali aponta todas as informações das muitas reuniões semanais que a ocupam.
Nunca casou e só tem tempo para namorar ao Domingo. Natural de Ramalde no Porto. Seria capaz de correr o país por uma nova causa.



Nós conhecemo-nos de forma muito diferente. Conheci-te numa organização que luta pelos interesses e direitos LGBT (Lésbicas, Gays, Bissexuais e Transgénero), mas percebi, mais tarde, que fazias parte de mais organizações. A que organizações é que pertences?

Mais activamente faço parte de duas que é o Sindicato (STSSSS), sou dirigente sindical e sou associada da UMAR, União de Mulheres Alternativa e Resposta.
Faço parte, também, neste momento, do GRIP (Grupo de Reflexão e Intervenção do Porto), que é uma associação que está mais ligada à intervenção local, em termos da educação para a população juvenil. E trabalho em todas as associações que pedem colaboração. Mas não sou associada de todas!

Como é que tu tens tempo para tudo isso?

(Risos) Primeiro tenho que fazer bem a minha agenda, tenho que marcar bem as coisas, algumas sobrepõem-se, é verdade. Ah, esqueci-me! Também faço parte de uma associação que é o Núcleo de Centros de Saúde de Aldoar. Essas reuniões são uma vez por mês. Pronto isto é fácil. Normalmente todas as organizações reúnem uma vez por mês e tem-se um dia fixo para isso. Isso é importante por causa da agenda e quando há actividades não vou tanto, não participo tanto. Mas tento sempre estar, não faltar!

Vamos voltar um pouco atrás na tua história. Como é que tu chegas ao activismo?

Eu acabei o liceu em 79, comecei a estudar à noite, porque entretanto, por questões familiares vi-me obrigada, entre aspas, a ter que trabalhar. Fui para um emprego onde trabalhei com umas pessoas muito importantes, mas não vou dizer o nome, depois tive a trabalhar numa farmácia e, depois, iniciei-me no local de trabalho onde estou hoje.

Que é?

Que é o Lar do Calvário-Carvalhido.

Pertence a quem esse lar?

Pertence à Igreja. É uma instituição privada de solidariedade social.
Entretanto as coisas alteraram-se um pouco, porque a verdadeira razão, que me trouxe à militância foi, precisamente, aquilo pelo que passei. Eu estive imensos anos nesta instituição a trabalhar imensas horas, a ser explorada. Havia um tratamento diferenciado. Eu não estava habituada a esse tipo de tratamento. A minha família é uma família tradicional, conservadora, mas eu sempre achei que as coisas não deveriam ser assim. Comecei a lutar e a trabalhar para que as coisas se alterassem, nas pequenas coisas do dia-a-dia.
Quando tomei mesmo consciência de que devia lutar, foi quando soube que o salário mínimo na altura era de 7 contos e quinhentos e eu estava a ganhar dois contos, por mês . Trabalhava das sete da manhã, até às nove da noite com um quarto de hora para almoço. Isto durante três anos e meio quatro.

Pronto a partir daí vim saber dos meus direitos, porque eu não aguentava mais. Quando adquiri o meu posto de trabalho, passei a efectiva, aí comecei a lutar pelos direitos dentro da instituição.
Aqui temos de fazer uma nota. Não nos podemos esquecer da época e do contexto, de que como as coisas eram na época. Aquilo era uma instituição muito fechada. Aquilo é uma IPSS (instituição privada de solidariedade social), ou seja, não é de ninguém, mas pertence a uma paróquia, à paróquia do Carvalhido. Em última análise era, e é, uma coisa de todos. Não era do Sr. Padre, nem era meu, era de todos. Nem era do Sr. Engenheiro, nem do Sr. Doutor! Concluindo. Administrativamente aquilo tinha uma hierarquia, mas a forma de funcionamento estava errada.

Tiveste resistências nessas mudanças que quiseste propor?

Sim. Primeiro tive de saber a que sindicato pertencia. Fui ao da função pública, mas não era o adequado ao sector onde eu estava.

Qual é o sector?

Instituições Privadas de Solidariedade Social. Mas havia um problema. Como este sector é maioritariamente de mulheres e continua a ser, continua-se a ganhar o salário mínimo nacional, continuam-se a fazer horários muito prolongados. Usa-se o termo voluntariado, boa-vontade, caridade de uma forma abusiva. Eu arranjei o meu sindicato.

Como é que estás hoje nesse emprego?

Estou arrumada na prateleira. A partir do momento em que tu defendes os teus direitos, lutas por determinado bem comum não és visto com bons olhos. As coisas neste momento estão um pouco paradas, porque eu tive um grave problema de saúde. Já não tenho aquela resistência que devia de ter. Aqui a questão da unidade entre as pessoas foi muito complicado. Ao início as colegas nem sequer queriam colaborar. Mas depois lá começaram a acordar.

Partiste da tua situação concreta. Não tinhas nenhum passado político-partidário?

Não. Comecei a ver que era impensável continuar a ganhar aquilo que ganhava, naquelas condições. Ainda hoje eu ganho 409 Euros, que é o salário mínimo nacional, mas há uma diminuição em termos de carga horária.

Ganhaste consciência da injustiça pelo teu passado católico Lurdes? Terá sido isso?

Exactamente. No tempo da minha adolescência até fui catequista. Até tirei o Curso Geral de Catequese durante três anos. A minha consciência política veio da religião, veio da igreja. Então se eu ia à missa todos os domingos, ouvia a homilia que os padres preparavam, o evangelho era uma coisa e o sermão era outra. Às vezes eu sentia contradições. Isso levava-me a reflectir. Sempre fui uma pessoa que pensa muito nas coisas.

Não deixaste a Igreja?

Neste momento se me perguntares se sou católica eu repondo que sou sou católica, porque fui baptizada. Mas eu sou cristã. Ser católico e cristão é diferente. Ser cristão amplia, não coarcta a tua maneira de olhar o outro. Por outro lado, o católico faz um lobbizinho e isso sente-se, em termos sociais.
Não se pode comparar um padre com Jesus Cristo. Jesus Cristo foi um actor social, uma pessoa que se empenhou no social e lutou contra o império romano, um padre neste momento não luta contra nada. Alguns padres tiveram um papel importante no Estado Novo, mas neste momento. Agora é só imagem e estatuto.

Continuas a ver injustiças hoje, como aquelas de que foste vítima há 29 anos?

Sim, mas de uma forma mais subtil, mais diplomática. Se calhar menos dolorosa, mas as marcas ficam. Essas pessoas às vezes não têm noção. As novas oportunidades, que estão a passar na televisão... passo-me dos carretos com aquilo! Eles não valorizam o trabalho, mas tu vais trabalhar para um sítio porque tens vontade, mas sobretudo, vais para ganhar um pecúlio, teres dinheiro para vivere. Tu crias essa expectativa, mas depois, não sais do salário baixo e desmotivas-te.

Qual é a tua função actual no teu trabalho, lá no lar?

Olha… já fui muitas coisas. Quando eu comecei aquilo era para pessoas em estado terminal. Na altura o lar não tinha muitas condições e estava a ser gerido por “irmãs” com uma avançada idade, portanto não estavam dentro das melhores práticas de cuidados paliativos. Isso mexeu muito comigo. As pessoas idosas chegam a uma altura em que estão muito velhas e sofrem. (emoção contida)

E tu sofres com elas?

Eu sofro muito. As pessoas estão ali a gemer. É por isso que eu sou a favor da eutanásia, sabes. Quando as pessoas pessoas não têm qualidade de vida nenhuma… desculpa…
(interrompe-se a entrevista por uns minutos)
Deixei os pisos. Não conseguia. Fui para a lavandaria, mas depois de adoecer, como não posso fazer esforços, fiquei nas costuras, na rouparia.
A instituição não encontrou nada mais adequado. Continuo com a minha categoria, que é lavadeira.

Como é que chegas à UMAR? (União de Mulheres Alternativa e Resposta)

Eu chego à UMAR por causa do meu trabalho. Porque eu trabalho com mulheres. Enquanto andava no liceu eu dava-me bem com toda a gente, quer com raparigas, quer com rapazes. O meu relacionamento com os rapazes era ligeiramente mais tímido. Mas no final da adolescência, entendia-me melhor com rapazes do que com raparigas. Às vezes eu tinha dificuldades em comunicar com raparigas, não sei.
Fui para a UMAR, quando comecei neste trabalho. Fui para o meio de mulheres e para o meio de freiras, precisava de as entender, não é?
Ainda hoje mantenho a ideia de que as mulheres são assim, porque o ambiente masculino que têm em casa é altamente legitimado. Agora está-se a mudar, sobretudo no campo das tarefas.

Nunca casaste?

Não nunca. Nunca casei, porque sou muito independente. E nunca gostei que me atirassem coisas à cara. Depois vêm as expectativas, porque eu ainda não ganhei dinheiro para me casar como eu queria, por isso, não me caso. Além disso sou muito alérgica à palavra casamento. Assusta-me.

Como é que olhas para as mulheres depois de teres ido para a UMAR?

Continuo a achar que muitas das mulheres são fúteis. Eu quero lá saber o que os outros têm e vestem. A mim interessa-me pouco. Depois sempre detestei a expressão “à caça de um bom partido”, porque algumas mulheres têm a mentalidade de sair de casa para ter maior conforto, sem ter de se mexer uma palha. Noto que se está a registar uma inversão de marcha. As mulheres estão a voltar para casa, para serem uma “boneca” dos homens. Não acho isso mal, se as pessoas se gostam, mas quando passa o exagero e fica muito visível. Isso é mau!
No início, até tinha aversão à palavra feminista, pensava que eram muito radicais, mas agora acho que todas devemos ser mais amigas. Comecei a entrar e a ler e acho que no fundo todas as mulheres são feministas.

Defendeste alguma colega tua?

Lembro-me, que as minhas colegas de trabalho, muitas delas, eram vítimas de violência doméstica. E escondiam isso. Eu tentava que elas tomassem consciência que estavam em situação de igualdade. Cheguei a presenciar um valente “estaladão” à porta do meu trabalho só, porque a minha colega bebeu o copo de leite, que tinha preparado para o marido de manhã. Ele não tinha gostado. Estás a ver isto! Ela entrou a chorar, eu, saí cá fora e ainda lhe disse: - ouça lá! Mas isto faz-se?


Gostava que me falasses de outro assunto que eu acho delicioso. Tu colaboras com uma data de associações LGBT, mas tu não és lésbica?

Não, não sou.

Como é que te vês nesse mundo. Tiveste que aprender algumas coisas?

Quando foi o fórum social português em Lisboa eu fui a alguns painéis relacionados com o movimento e as lutas LGBT.
Eu conhecia pessoas já, mas para mim era um tema tabu. Eu não gosto de ferir, de fazer perguntas com determinado tipo de intenção. O meu problema era, que eu já tinha sido abordada por uma mulher. E na altura até fiquei com medo, lembro-me disso. Disse-lhe: - desculpa lá, mas não gosto de pessoas do mesmo sexo! Mas agora dou-me conta que essa pessoa era um pouco obsessiva.
Bem, mas em Lisboa foi uma experiência muito interessante. Ouvi o Sérgio Vitorino, Paulo Corte Real, a Fabíola. A UMAR entretanto percebeu que necessitava de dialogar e a fazer com pessoas LGBT, que eu no início nem sabia o que era. Então em Lisboa disseram-me que eu podia fazer esse trabalho. E eu disse: “Eu!”
Comecei a envolver-me e, agora, estou com o GRIP, as Panteras e o Clube Safo. Parecia tudo muito erudito, mas agora estou a aprender muito.

Achas que as pessoas se deviam dedicar mais ao activismo?

Acho que sim. Muitas vezes este tipo de percurso é mais importante. Estar em organizações não governamentais, em partidos ou até em sindicatos aprende-se muito mais do que numa universidade ou num liceu.
nota editorial:
Esta entrevista durou cerca de duas horas. Tive, por questões de espaço de editar o mais possível. Prometo contudo, voltar à história de Lurdes mais tarde.

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