1.7.07

Uma dupla sem medo




Entrevista com o André e o Tiago, árbitros e activistas contra a homofobia.

André Verde (18 anos) e Tiago Braga (19 anos) são dois jovens especiais. Constituem o futuro, a geração sem medo, que assume o que é, que tem vontade de aplicar as mudanças trazidas pela geração anterior.
São os dois gays assumidos e implicados na luta contra a homofobia. Para ganharem uns cobres, que paguem as despesas de formação, são árbitros de futsal. Homens do apito, num ambiente, ainda longe de ser aberto à diferença.
Pena não haver mais narrativas destas. Uma entrevista a dois, com argumentos válidos para todos.

Como é que vocês chegam a árbitros?

André- Foi através do Tiago. Começava um curso de arbitragem em Fevereiro, acabei por me inscrever durante três meses fiz o curso e no final acabei por entrar na arbitragem, após passar as provas físicas, orais e escritas.

Tiago- Entrei através de um amigo, que também é árbitro. Sempre gostei de desporto, futebol em particular e futsal, mais ainda. Nunca joguei futsal e gostava de futsal, por isso optei por ir para a arbitragem.

Qual é a diferença entre o futebol e o futsal?

Tiago- É um jogo mais corrido, onde há muito mais acção. De duzentos jogos que tenha arbitrado há um ou dois que saíram empatados, ou seja, a monotonia no futsal não existe, como há no futebol de onze. É bastante interessante o jogo.

Já gostavas de futebol/futsal antes?

André- Não gostava muito de futebol. Praticava outro tipo de desporto. Nunca fui muito ligado aos desportos colectivos, de grupo. Fazia natação e musculação. Acabei por fazer o curso, porque era gratuito, mas também por razões económicas. Trabalho ao fim-de-semana numa coisa desportiva e ajuda-me a pagar a minha faculdade.

Vocês são os dois gays assumidos, certo? Conheceram-se faz um ano…

Tiago- Desculpa interromper! Somos assumidos, mas na arbitragem, por razões óbvias não posso ser assumido.

Porque é um mundo muito homofóbico é isso?

Tiago- Bastante preconceituoso, homofóbico, muito por parte dos dirigentes da Associação de Futebol do Porto, que são os que eu conheço em particular.

André- Na formação nota-se logo. Há um vídeo nas primeiras sessões, que apresenta um árbitro efeminado, que tem umas poses e gestos engraçados. Mostraram-nos o vídeo para nós não seguirmos aquele modo de actuar em campo. O modelo gay. Dizem-nos - isto é aquilo que nós não queremos!

Vocês entretanto também estão implicados na luta pelos direitos das pessoas LGBT (Lésbicas, Gays, Bissexuais e Trangénero)? Vocês fazem parte das panteras rosa?

André- Fazemos parte das Panteras Rosa do núcleo do Porto. Foi aí que eu conheci melhor o Tiago. E foi aí também que entrei mais no activismo. Nós nas panteras desenvolvemos mais um trabalho contra a homofobia, bifobia, transfobia etc, que é o que existe mais no Porto.
Tiago, tu tens mais passado político que o André?

Tiago- Só comecei a estar mais envolvido no activismo há cerca de um ano e meio, por isso, também não é a assim tanto tempo quanto isso. Comecei a gostar.

André, o que é que tu queres fazer?

André- Para além de produtor de cinema, gostava de ser modelo, de enveredar pela moda. Fazer alguns cursos de formação noutras áreas de que gosto como a fotografia, a iluminação entre outros, que acabam por ser complementares de uma mesma área artística. Gostava de experimentar de tudo um pouco.

Tu estás na fotografia, mas até chegares aí andaste um pouco à procura?

Tiago- Sim, já estive em artes, em científico-natural… decidi desistir de tudo, tive uma crise existencial e no meio disso tudo, a única coisa que sobreviveu foi a fotografia, que foi sempre uma coisa de que gostei. Já vinha do meu avô que era fotografo. Como eu não me estava a ver a trabalhar em nada, não me via em nenhuma profissão, decidi fazer uma coisa que gosto que é a fotografia. Se tiver emprego tenho, se não tiver não tenho, trabalho em cafés, já o fiz, não há-de ser problema!

André, entraste na Faculdade em Química e agora vais mudar?

André- Candidatei-me a química, mas acabei por mudar para cinema, porque na realidade, gostava do que estava a estudar, mas não era mesmo isso que me estava a entusiasmar. Não se enquadra de todo com a minha personalidade, por isso, acabei por optar por outro ramo, bem mais sonhador, que é o cinema.

Acham que ainda há muita discriminação em relação aos Homossexuais, Lésbicas…?

Tiago- Claro que ainda há muita discriminação em relação aos LGBT e para isso basta sair à rua. Dois homens heteressexuais podem fazer o exercício de dar a mão a outro amigo na rua e verificarem que há ainda muito preconceito. Não é muito difícil ser-se insultado na rua, por causa de um afecto com outra pessoa.

André- Existe muita. Foi por isso também que eu me meti nas Panteras Rosa, sobretudo no que diz respeito ao Porto, que em relação a Lisboa está bem pior. No Porto, nos sítios públicos como um shopping ou ruas muito frequentadas do centro, ai de facto, se nós quisermos cumprimentar alguém de forma mais afectuosa, acabamos por ser condenados com o olhar e até, com comentários menos felizes.
O Porto sempre foi e ainda é muito preconceituoso.

Como é que acham que isso podia ser combatido aqui, na cidade do Porto?

Tiago- Podia ser combatido se toda gente se unisse: homossexuais, Heterossexuais, Bissexuais… Se toda a gente se unisse nessa luta, rejeitando e repudiando os comentários homofóbicos que existem, atacando esses comentários de forma séria. Se toda a gente se implicasse nisso a discriminação perdia a força. Ia ser mais fácil para nós, que sofremos na pele o preconceito, de sair à rua e podermos ser quem somos, sem termos de andar com uma máscara.

Tiveram que abdicar de alguma coisa pelo facto de serem gays?

André- Agora que me estás a fazer a pergunta não estou a ver. Tive que abdicar de coisas pelos meus familiares, que não sabiam de nada. Hoje, já quase todos sabem, excepto a minha mãe.
Tive que mudar o meu comportamento na escola que frequentava. Se eu mostrasse o que sou, acabava por ser condenado o ano lectivo todo. Imagina quatro anos de curso com uma máscara como disse o Tiago à pouco.
Tirando a escola e a família não me lembro de abdicar de nada.

Tiago- Todos os dias temos de abdicar de qualquer coisa. Saímos à rua e se passarmos por algumas pessoas não podemos dar um beijo, falo dos “Gunas”, que andam aí. Se nós damos um beijo, meu Deus, somos chicoteados ali. Todos os dias existem situações dessas.
Na escola é impensável um gay revelar-se e isso não dar gozo e troça por parte das pessoas, um inferno para ele…

É por isso que as pessoas não assumem?

Tiago- é por isso que as pessoas não assumem a sua orientação sexual.

André- Aquilo que o Tiago referia das escolas, não acontece em todas! Há escolas em que é mais fácil, sobretudo as artísticas. Não são tão discriminados dentro da escola, mas são por serem daquela escola, fora da escola.

Vocês não têm medo de terem esta frontalidade perante a vida ao assumirem a vossa orientação?

André- No início tinha muito medo. Cheguei a pensar que se quisesse concretizar o meu amor por alguém do mesmo sexo, nunca pensei assumir. Mas, com o tempo comecei a pensar, que se nós quisermos muito, conseguimos ser felizes mesmo, com as pessoas que nos condenam na rua. É possível ter uma relação com a pessoa que a gente ama e quer. O passo mais difícil é querer assumir. A partir daí serei eu próprio e não precisarei da máscara.

Tiago- Quando descobri a minha verdadeira orientação sexual eu tive medo. Tive medo do mundo e de mim próprio. Eu cresci num ambiente familiar católico em que há uma sexualidade pecadora. Eu próprio tinha preconceitos em relação à minha orientação sexual, mas depois percebi que amar homens ou amar mulheres é a mesma coisa, são pessoas. Depois veio o medo da família descobrir. Isso também já desapareceu, com o activismo essas coisas acabam por desaparecer. Em relação às pessoas de lá de fora, o único medo que eu tenho é de ser agredido. Só esse. Toda a gente sabe que acontece, já aconteceram muitas vezes.

Vocês já alguma vez pensaram em sair do país?

André- Sim. Já temos planos futuros para concluirmos estudos no estrangeiro. O país para onde vamos ainda não está escolhido. Mais tarde veremos.

Tiago- Ele já respondeu. Eu não quero ficar sempre neste país.

Mas tem que ver com o facto de serem gays?

André- Há países onde é mais fácil ser-se feliz. Existe uma mentalidade mais aberta, não é um tabu ser-se gay. Para além disso, sei que a profissão que eu quero exercer como o cinema, tenho mais oportunidades lá fora.

Tiago- Qualquer país para onde formos a homofobia estará presente. Por isso não vou fugir daqui para fugir à homofobia. Mas quando eu for vou continuar a combater lá a homofobia que exista. Eu não quero fugir eu quero combater isso.
Vou sair daqui simplesmente, porque para além das coisas todas Portugal é um logro para se trabalhar. Uma porcaria, não há trabalho e o que há, é mal pago.

Vocês já foram vítimas de agressão?

André- Não. Connosco nunca aconteceu, mas acompanhamos o último barómetro da homofobia das Panteras pela cidade do Porto e verificamos a quantidade de comentários e reacções de uma cidade. Não achei grande piada.

Tiago: Já me aconteceu ser maltratado na rua. Estava eu a passar com um amigo meu, em frente do Rivoli, não era o meu namorado. A praça estava cheia de gente que devia ir ao teatro. Eu e o meu amigo achamos por bem fazer uma pequena acção para ver os comentários que podíamos ter. Demos um beijo na boca no meio deles. O mais engraçado é que os mais novos, que deviam ser alunos riram-se, mas sem nada de extraordinário a apontar, aquilo para eles era anormal. O que não gostamos de ver foram os professores que acharam aquilo bizarro e a fazerem comentários. Só provou que quem ensina neste pais não está preparado para tal.

Se tivessem direito ao casamento pensariam casar?

André- Nós estamos a pensar em casar.

Tiago- Independentemente de casarmos ou não, acho, que o casamento deveria ser para todos. Isso é básico em democracia. Com o André penso casar. É um contrato que traz regalias e se pagamos os mesmos impostos devemos ter acesso às mesmas vantagens que os casais heterossexuais.

Pretendem continuar a arbitrar num futuro mais longínquo?

André: Não. É só mesmo enquanto estiver a viver no Porto e precisar de dinheiro extra para pagar a faculdade.

Tiago: Eu penso continuar na arbitragem pelas mesmas razões. Eu gasto muito dinheiro com o meu curso. Vou continuar na arbitragem enquanto precisar de dinheiro. Ao princípio estava lá por gosto, mas comecei a aperceber-me que o futebol está podre. Quem manda na arbitragem está podre.

Vocês querem arbitrar juntos?

André: O objectivo é estarmos juntos a arbitrar os jogos. As equipas de arbitragem são constituídas por três árbitros. Nós seremos dois deles.

Que fotografia é que gostavas de fazer neste momento?

Tiago: Gostava de pegar na câmara e acompanhar uma família que eu não conheço de lado nenhum e fazer o registo fotográfico da vida dessas pessoas. Adorava fazer isso agora.

Que filme é que gostavas de produzir?

André: Têm passado muitos projectos pela cabeça. Mas no imediato gostava de fazer um filme sobre as pessoas com quem tenho vivido os meus últimos dias. O Fernando, o Riki, todos aqueles que me têm feito rir, a minha vida é mais feliz com eles. Adorava fazer um filme simples sobre eles.
Outro projecto em cinema era conceber uma obra abrangente do ponto de vista social. Um filme onde as pessoas com diferenças existissem de forma normal, pela riqueza que representam na sociedade. Para mostrar que em todos os sítios há pessoas diferentes, que o mundo tem pessoas com gostos e orientações diferentes.


O que é que achas que daqui a dez anos pode mudar em Portugal?

André- Acredito que vai haver evolução. Daqui a dez anos pode haver solução para os problemas que temos tido como a homofobia e o racismo.

Tiago- Eu gostava que daqui a dez anos questões como os homossexuais não poderem fazer uma dádiva de sangue já estivesse ultrapassado. Gostava que os casais homossexuais pudessem adoptar crianças. Gostava que os gays tivessem o direito ao casamento civil. Gostava que daqui a dez anos tivéssemos professores e formadores que dessem nas escolas aulas sobre sexualidade em condições. Gostava que o preconceito diminuísse…

André- Eu também gostava… e que houvessem mais discotecas gays, melhores e mais interessantes.

Tiago- Em relação às discotecas eu queria dizer que não gosto de “guetos” e daqui a dez anos gostava de poder ir a qualquer discoteca e esta não ser nem gay, nem hetero. Gostava de estar à vontade.


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