12.7.07

НЕ Е ПРОНАЈДЕН ЗАПИС! (Parabéns!)

( Foto: João Tuna, Teatro Nacional São João, Teatro Praga)

Entrevista com Pedro Penim, actor, intérprete.

O Penim fazia anos. Fui avisado minutos antes pelo produtor do Teatro Praga. Rumaram ao Porto com a peça “Avarento ou a Última Festa”, uma comédia em cinco actos.
Pedro Penim é um dos fundadores dos Praga, um projecto à procura, na disputa, no confronto, com polémica. Nasceram tarde, num Portugal cada vez menos interessado em pensar-(se). Uma entrevista de parabéns, nos dez anos de uma estrutura com aquela atitude. Não ficou nada por dizer.



Fazes anos não é verdade?

É verdade.

Gostas de celebrar o teu aniversário?

Não nada. Não sou nada de celebrações e muito menos do meu aniversário e, normalmente, passa-me assim um pouco ao lado. Quando era criança ainda sentia aquela coisa “hoje é um dia especial!”, mas depois… passa-me ao lado.

Vão telefonar-te muito?


Vão ligar-me muito, mas eu não costumo celebrar nada. Muitas vezes tenho, aquela coisa, como as festas surpresa, que têm graça. Além disso, hoje vou passar o meu aniversário a fazer o espectáculo, que é bom, é engraçado. Mas não tenho nenhuma relação com datas de aniversário, nem com datas nenhumas, em geral.

Bem…


Faço 32 anos. Já tenho uma idade respeitável.

Dizes a idade para não te associarem ao Disney Channel!

Olha, aqui (no Porto) ainda falam disso.

No blogue dos Praga, a propósito do espectáculo “O avarento ou a última festa”, vocês escrevem que para Moliére “rir era um meio e não um fim”. Para ti o que é fazer rir?

É muito interessante que as citações, quando são usadas, são sempre em proveito de quem as está a usar. Não é tanto para ver o que era para Moliére, porque isso não interessa nada.
Este espectáculo é uma comédia, uma comédia quase num estado puro e há um objectivo claro de fazer rir. Mas depois, há uma espécie de descolagem da ideia do riso como um momento de alienação, de descompressão do dia-a-dia, aqueles clichés, que normalmente se usam associados às comédias de entretenimento - “venha aqui passar um bom bocado e esquecer-se das desgraças do dia!”. Não é nada disso que se trata, é o contrário.
O que nós queremos fazer aqui através do riso e do humor é criar reflexão como noutro espectáculo qualquer. Isso em Moliére já acontecia usar a gargalhada como um catalizador de alguma coisa que possa ser mais significativa. Não tem que ser necessariamente uma mensagem, nem um objectivo pré-determinado. Como um momento de comunicação com o público, isso provoca reacções, confronto e consequentemente provoca pensamento.
Se isso acontecer através do riso pode até ser mais imediata essa comunicação. Este espectáculo põe isso à prova num ping-pongue constante com o público.

De qualquer das formas, na estreia, vocês continuavam o texto em cima das gargalhadas do público? Não têm prática para o “timming” da comédia?

Pois não. Não somos nem comediantes, nem o José Maria Viera Mendes (autor do texto) é um comediógrafo. Se calhar aqui, há mais uma apropriação de um género, do que nos definirmos como um grupo que faz rir ou que pretende fazer os outros rirem. No caso da estreia há, de facto, uma desadequação entre aquilo que muitas vezes estávamos a dizer e a reacção das pessoas. Depois da estreia foi o contrário nós esperávamos reacção e nada, ficava assim um silêncio esquisito.
Aqui, há também um mecanismo de adaptação a esta sala e isso sim, é muito complicado para nós (Teatro Nacional São João). É a primeira vez que nós estamos numa sala tão grande, tão clássica, com um palco à italiana com dourados, como fala o Ricardo Pais. Aquilo precisa de uma adaptação nossa, diária, àquela circunstância que não é a nossa. Mas essas falhas acabam por ser aquilo que nós somos, porque quando nós apresentamos um espectáculo, aquilo que tu vês está mesmo a acontecer, aquilo é o que é e, não pretende ser nenhuma transposição para outra coisa qualquer. Todas essas questões acabam por fazer parte do objecto final.

Que dez anos foram estes do Teatro Praga? Foram os preparativos para a Festa?

Não nada. Se há coisa que não aconteceu foram os preparativos para coisa nenhuma. As coisas aconteceram quase sempre por acaso. O grupo formou-se por acaso, não houve nenhuma ideia pré-estabelecida de como ia ser o grupo. Aliás, nós não fazíamos ideia nenhuma do que era um grupo e muito menos do que era o teatro. Nós formamos o grupo mesmo antes de estrearmos ou de termos experiência de teatro. Então isto nunca teve esse lado programático, temos esta companhia e isto é o projecto da minha vida, agora estou a investir toda a minha energia neste projecto, eu quero que isto seja bem sucedido, isso nunca aconteceu. A partir de certa altura o projecto começou a pedir mais de nós, mais, eventualmente, do que aquilo que nós tínhamos pedido ao projecto. Estes dez anos foram uma espécie de sucessão de acontecimentos, que se calhar, tem muito que ver com a realidade cultural, mais especificamente teatral. Não podes fazer um plano assim muito pré-determinado com objectivos muito delineados senão vais ter grandes desilusões. As coisas foram feitas, sobretudo no início, de uma forma muito adolescente e muito despreocupada!
Agora as coisas acontecem de uma forma mais rápida e mais profissionalizante…

Tiveste formação teatral?

Sim. Fiz o conservatório, mas já depois de haver o Teatro Praga. Nós conhecemo-nos num curso de iniciação teatral dos Sátiros, que era um grupo brasileiro. Era um curso, aos Sábados, ia lá três horas e fazíamos umas brincadeiras, depois apresentávamos um exercício final. Então nós apresentamo-nos como um grupo, demos um nome e ficou Teatro Praga, logo aí. Entretanto a coisa correu bem e tentamos fazer um outro espectáculo com o dinheiro de bilheteira que tínhamos ganho do espectáculo anterior. A partir daí a coisa começou a cavalgar.

Neste Avarento vocês trabalham textos que “ocupam um território opticamente correcto, mas de difícil apreensão”. Quem é que se cansa mais, vocês ou o público?

Quem é que se cansa mais?…

O Romeu Runa, no final dizia-me que estava de rastos.

É uma questão física, no caso deste espectáculo. Mas as coisas são postas de uma forma pouco confortável, quer para nós, quer para o público. E, essa ideia de conforto é recusada logo à partida, porque não nos interessa. Interessa-nos um território arriscado. Quando é arriscado, normalmente pressupõe investimento e esse risco pressupõe que possa haver erro e o erro causa angústia. É uma área um pouco movediça e pode gerar esse cansaço, não sei se cansaço, mas tensão, quer ao público, quer a nós enquanto criadores. Quando ia fazer espectáculos noutras companhias o que é que eu sentia? Quais eram as diferenças em relação aos Praga? Para mim estar a fazer espectáculos noutras companhias é como estar de férias, porque não tenho trabalho, as coisas são sempre mais fáceis, mais simples e muito menos preocupadas.

No dia 26 de Junho escrevias no blogue “não me sinto seguro, parece que o chão treme…” Já te sentes mais seguro?

Engraçado uma pergunta dessas… Sim, já me sinto mais seguro, agora… sobretudo aqui no Porto, o público que nos vai ver… percebe-se que há uma criação de expectativa. Ainda por cima um espectáculo feito a partir de Moliére, quando há uma tradição do Teatro Nacional de São João em fazer o Moliére de uma determinada maneira, que não é muito tradicional, mas ao mesmo tempo não muito vanguardista… essa expectativa está criada e há reacções muito díspares... mas em relação à pergunta… sim já me sinto mais seguro. Há aqui uma questão, neste espectáculo, que nos outros não existe. Como há uma equipa tão grande por detrás, uma máquina que ampara, normalmente estás mais dependente de ti mesmo, do que estás a fazer. Aqui estás mais amparado por estas circunstâncias de produção. Num dia como hoje se tivéssemos espectáculo à noite já andávamos a fazer coisas que era preciso fazer. Aqui estamos mais relaxados.

Os famosos técnicos do São João?

São magníficos. Não há sítio tão especial em Portugal para se trabalhar, nem há nenhum teatro com as condições que eles têm. Em Lisboa nem pensar e aqui sentes mesmo apoiado enquanto criador.

Com o texto já feito à partida foi difícil questionar o que estavam a fazer?

Foi difícil para nós. Houve sempre uma grande resistência da nossa parte. Para já encontrar alguém com quem pudéssemos ter essa relação de grupo de teatro e autor, ou dramaturgo ou escritor, que nunca tinha acontecido…

Vocês gostam mais de pessoas mortas?

Sim, nós gostamos mais de pessoas mortas, porque são mais fáceis de “violar”…
Neste caso fazia-nos confusão a colaboração com alguém que tem uma função muito específica dentro do processo e que não partilha de tudo o resto. Isto alastra-se a outras coisas como a cenografia, os figurinos. Das outras experiências que já tínhamos tido correram todas um pouco mal. Neste caso com o Zé ele teve uma experiência com o André Teodósio, (Espaço do Tempo em Montemor-o-Novo) o “Super-Gorila”, num espectáculo que fizeram e percebeu-se que com ele havia um entendimento e mais pontos de contacto em relação àquilo que nós fazemos e à forma como ele escreve.
Apesar da segurança que tínhamos, houve muita resistência da nossa parte por não podermos chafurdar naquilo. Mas correu bem, porque foi uma coisa escrita ao pé de nós, por uma pessoa da idade, que escreveu a pensar em nós. Havia uma data de indicadores que fazia com que o processo de escrita fosse interno quase e não essa ideia de um objecto exterior ser convocado para outro objecto.

Gostas do Porto?

Vou começar por dizer que não gosto de Lisboa. Para dizer, que não gosto do Porto. Não tenho relação nenhuma com a cidade. É uma cidade estranha. Lisboa tem um problema muito grande para uma capital de um país, parece uma cidade morta. O Porto parece-me ainda mais morto que Lisboa. Isso não esperava.

Vocês saem à noite?

Sim, aqui à nossa volta não se passa nada. Às vezes tenho a sensação que a cidade não existe, que é uma espécie de prestação de serviços durante o dia e esvazia-se à noite. Em Lisboa também, mas aqui é ainda mais visível. E culturalmente é uma pobreza franciscana. E eu sei que não é por falta de investimento criativo das pessoas do Porto, mas é muito esquisito. Aí há uma diferença em relação a Lisboa. Ali há ainda uma diversidade muito grande, consegues ver coisas completamente diferentes em momentos diferentes e semanalmente há estreias. E o Porto e Lisboa não são assim tão díspares para justificar essa diferença tão abissal em relação à oferta cultural. Há a Casa da Música e o São João… e há uma ideia quase macro-céfala em relação a esses espaços, que até tentam colmatar essa falta de iniciativa de coisas mais pequenas ou até mais “off”… aqui não se sente esse vibração.

Podias dizer que o Porto é uma cidade avarenta?

O presidente da Câmara é certamente.

“Desventrada, insegura”? (trecho da peça)

Pois, pois, as pessoas ligam sempre isso com o Porto. Mas eu acho que tem a ver com a mentalidade do Porto. Um mal de viver, um mal-viver... E isso é uma coisa política, uma coisa política em relação à cidade! Neste caso destas frases elas não são para o Porto, porque serve para todas as cidades, porque elas são desventradas, cinzentas e inseguras, funciona em qualquer sítio. Aqui parece que cola, com as pessoas que vão ao teatro, porque à partida são mais interessadas, nesta coisa mais política-artística. Se calhar não é nada disso!

Após a estreia houve pessoas a consumir-te alguns minutos e tu no teu blogue citas a Mariana Abramovic que depois do espectáculo tem é vontade de comer um gelado e que não a chateiem. Gostas disso?

Gosto, gosto… se for pessoas que eu conheço vou perguntar o que é que elas acharam, mas não gosto nada de fazer de anfitrião do espectáculo. Mas gosto dessa discussão e dessa interacção. Na Culturgest o que aconteceu com o “Agatha Christie” (espectáculo), depois do espectáculo, havia uma espécie de debate sobre os temas do espectáculo. Essa coisa pedagógica pode ser muito boa ou até ser muito má. Aqui acho que podia funcionar.
Há uma ainda melhor, do Johnny Rotten dos Sex Pistols, que depois dos concertos não quer que ninguém lhe venha dizer nada, nem dar os parabéns, só quer que lhe chupem a pila e acabou.

Vocês lá no blogue a certa altura escrevem sobre aqueles que expressam ódio pelos Praga de forma anónima? Acontece muito isso?

Agora menos, mas viemos agora da ESMAE (Escola Superior de Música e Artes do Espectáculo) e uma das participantes disse-nos que havia por lá um “sururu” de coisas que se dividiam entre pessoas que gostam muito e aqueles que odeiam e desprezam totalmente. Acho isso um absurdo! Às vezes parece que estamos a fazer uma coisa absolutamente revolucionária, que não o é! Não é de todo. Quando vejo as pessoas a telefonar-me e a perguntar o que é que andas a fazer no workshop, “queremos saber!!” e as discussões muito a quente, porque as pessoas te odeiam.
Fomos fazer um espectáculo à Alemanha, a Colónia, o “Private Life”, tivemos reacções do mais inacreditál, com pessoas a chorar no fim, a dizerem “isto não é teatro!”…e eu adoro quando isso acontece, porque é quase um dever cumprido causar essa reacção epidérmica. Por outro lado faz-me muita confusão que isso ainda aconteça. Se fosse nos anos oitenta onde era possível essa terapia do choque em relação ao objecto artístico!

Vocês acham-se activistas do teatro, se é que isso existe?

Não vemos isso como um macro-objectivo. Estamos aqui para desafiar-nos nas coisas que queremos fazer. É um projecto artístico e não de intervenção, é-o indirectamente, mas não tem uma agenda. É um projecto artístico e os espectáculos não são políticos, mas são feitos politicamente e isso faz toda a diferença. Não tem um objectivo político, mas são feitos de tal forma que têm implicações políticas.

Vocês fazem residências artísticas para criar?

As residências artísticas são uma coisa da dança. São um espaço de criação fora do local onde vai acontecer o espectáculo e o facto de fazermos residências não é propriamente inocente, porque é com as estruturas da dança com quem nós temos a maioria dos contactos, “O Espaço do Tempo”, “A Centa”, “A Transforma”, de Torres Vedras…
O grande apoio do teatro é a dança, que é quase irónico, porque a dança tem muito menos apoios do Ministério da Cultura. O grande investimento no teatro é feito pelas estruturas da dança, o festival “Alkantra”, que começou a abrir-se a outras artes como o teatro e a performance… isso é tão sintomático de como são velhas as instituições teatrais em Portugal e como são pouco maleáveis e pouco empreendedoras. Ou são estas casas como CCB, o São João ou a Cullturgest a investir ou da parte das companhias é um dó de alma, sabendo nós que têm tanto dinheiro e recursos e usam em proveito próprio. Sabendo que no Porto e em Lisboa não há coisas novas, nos anos noventa ainda se acreditava que individualmente ou em grupo surgiam projectos novos, mas nós somos, provavelmente a companhia mais nova a ter apoios anuais sustentados do Instituto das Artes. É ridículo, porque até que apareça renovação é responsabilidade dessas companhias que isso aconteça. Os Artistas Unidos são dos poucos a fazer isso, multiplicam recursos de uma forma pró-activa. Nas outras companhias, seja um trabalho bom ou mau, isso é questionável, parecem casulos.

Vais comer um gelado hoje?

Vamos ver… mas sim vá… que é que se passa hoje, que não há nos outros dias, as pessoas tratam-te melhor?

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